por Rodrigo Vianna
Deve ter sido o inconsciente do editor de Internacional. Ou então,
ele quis passar a mensagem de forma subliminar – sem alertar os
diretores do jornal. Seja como for, a página A-14 (reproduzida ao
lado) no “Estadão” dessa sexta-feira (03/05) é didática.
No alto, um texto demolidor sobre as ações da CIA pelo mundo: “Os
Sacos de dinheiro da CIA”. Sim: conspirações, assassinatos, malas de
dinheiro para derrubar governos não-alinhados com Washington. Não é
nenhum “esquerdista” bolivariano quem diz. O artigo, publicado
pelo ”Foreign Policy” (um site sobre Politica Internacional dos EUA) e
traduzido pelo jornal paulista, fala sobre tudo aquilo a que fazemos
referência aqui na internet, e que muitas vezes é tratado como “teoria
conspiratória”:
a CIA age, sim, sem pudores pelo Mundo; mata,
encomenda assassinatos, tira e põe governos. É o braço de “inteligência”
do imperialismo. Sim, imperialismo. Isso não é discurso “da época da
Guerra Fria”. Isso não é discurso de esquerdista antiamericano. Não. São
fatos. Tudo está lá, no artigo publicado pelo ”Estadão” -
leia aqui.
O curioso é que na mesma página (e por isso digo que o inconsciente
do editor parece ter agido), há duas outras reportagens: uma sobre a
blogueira cubana Yoani Sanchez; a outra sobre a Globovisión (TV privada
antichavista, que ajudou a dar o golpe contra Chavez em 2002).
Quando a tal blogueira esteve no Brasil, eu disse a alguns amigos que
ela parecia agir sob orientação (e com apoio) da CIA. Não se trata de
opinião.
Há fotos de Yoani entrando para reuniões num casarão mantido pelos EUA, no bairro de Miramar em Havana. Eu já vi essas fotos.
A outra reportagem na mesma página do jornal trata da “guerra de informações” na Venezuela. Com destaque para a “Globovisión”.
A
mídia pró-EUA tenta vender a imagem de que a Venezuela é uma ditadura.
Trata-se, claramente, de uma campanha midiática. Eu não tenho dúvidas de
que a CIA está por trás disso. Assim como está por trás das ações
mais violentas da oposição antichavista – comandadas agora por Capriles.
Vejam, não estou dizendo que todos os antichavistas são “teleguiados”
pela CIA. Não é isso. Há, é claro, muita gente que não gosta de Chavez e
Maduro. O que digo é que a oposição é potencializada com ajuda dos
Estados Unidos.
Temo que os Estados Unidos estejam preparando o
terreno para que se inicie uma guerra civil no país vizinho. Roteiro
parecido com o da Síria. Vejam: no Paraguai e em Honduras, governos
“fracos” puderam ser derrubados com “golpes institucionais”. Na
Venezuela, isso é impossível. Ali, só a guerra civil. O risco é imenso.
Da mesma forma, não quero dizer que
todos “dissidentes” cubanos sejam agentes da CIA. Mas os métodos e os
parceiros de Yoani (inclusive no Brasil) não deixam dúvida: o blog dela
pode ter surgido, lá atrás, como iniciativa individual de uma jovem
descontente com o governo de Cuba. Hoje,
só os ingênuos ou mal
intencionados podem desconhecer que Yoani trabalha, de fato, como agente
dos interesses dos EUA e seus aliados.
Ah, tudo isso é “teoria conspiratória”! Ah, é? Então leiam o artigo
do “Foreign Policy”. A CIA ajudou a matar Patrice Lumumba no Congo, nos
anos 60. Deu armas e dinheiro para Mobutu Sese Seko, o adversário de
Lumumba. O texto fala de ações semelhantes no irã dos anos 50, no
Afeganistão dos anos 80. E isso não ocorria só na “periferia”. A CIA
(que normalmente trabalha dentro das embaixadas americanas) despejou
caminhões de dinheiro na democracia-cristã italiana para barrar o avanço
do Partico Comunista Italiano – o mais poderoso do Ocidente.
O artigo diz que a CIA deveria “aprender com seus erros”. E eu me
pergunto: erros? O que deu errado? Os EUA seguem poderosíssimos, a
União Soviética já não existe, no Oriente Médio quem ousou agir com
alguma independência foi esmagado (Iraque, Líbia – nos anos mais
recentes) e na “periferia” quase não se fala em “socialismo” ou rebeldia
antiamericana.
Há só uma exceção: América Latina. Aqui, enquanto os EUA faziam a
“limpeza” no Oriente Médio, surgiu uma geração de governos
não-alinhados com o projeto neoliberal. Em 2002, com o golpe derrotado
na Venezuela, os EUA perderam a capacidade de iniciativa durante alguns
anos… Mas a onda já virou. A derrubada de Lugo e Zelaya foram sinais. Os
ataques ininterruptos a Cristina, Evo e Lula foram um passo adiante. No
caso brasileiro, está tudo claríssimo: há encontros de jornalistas da
Globo/Abril/Folha com representantes dos EUA. Tudo registrado no
Wikileaks. Há o Insituto Millenium, há o giro internacional de Yoani.
As malas de dinheiro, de que fala o artigo do “Foreig Policy”, continuam circulando.
Nos anos 70/80, quem dizia que a CIA tinha ajudado a dar o golpe
contra Jango (e poderia ter até ajudado a matar o presidente deposto)
era chamado de “esquerdista adepto de teorias conspiratórias”. Os
documentos mais recentes (inclusive gravações de conversas na Casa
Branca) mostram que conspiração, de fato, houve: na Casa Branca e nas
embaixadas americanas. E não era teoria. Eram fatos.
Os fatos estão aí de novo: escancarados. Vivemos numa encruzilhada. A
chance da América Latina, dessa vez, é que os Estados Unidos têm tantas
frentes para combater (Coréia, Siria, Iraque – sem falar na crise que
debilita as contas e o poder imperial) que talvez isso nos dê fôlego
para reagir e resistir.
Mas do outro lado o exército vai-se fortalecendo – com políticos,
empresários, empresas de mídia, colunistas… Alguns são mercenários.
Outros fazem por amor. Parte da elite latino-americana gosta de se
deitar à cama com a turma da CIA.
Em 20 ou 30 anos, saberemos detalhes e compreenderemos que nada disso
é “teoria conspiratória.” Espero que (mais uma vez) não seja tarde
demais.