A
indústria cinematográfica norte-americana em geral, grande lixo
cultural, faz apologia das drogas, da violência, da pornografia, do
individualismo, do consumismo artificial e do poderio bélico
norte-americano, configurando-se também forte arma imperialista dos
Estados Unidos, tudo isso recheado de mensagens subliminares entre as
mais explícitas, que não são poucas e em nada primam pela discrição.
Apoiado
pelo Departamento de Defesa do país que, através de contrato
restritivo, orienta e apoia materialmente a produção de diversos filmes
de
Hollywood, o cinema é justamente um dos três maiores símbolos do
American Way of Life, isto é, o Estilo de Vida Norte-Americano. E a história de
Hollywood, principal indústria do cinema dos Estados Unidos e do mundo, é tão suja quanto àquilo que se propõe a vender ao mundo
O surto do cinema iniciou-se nos anos de 1920 nos próprios Estados Unidos, que viviam os Frenetic Dancing Days,
isto é, Dias de Dança Frenética. Tal metáfora, auto-definida pela
sociedade local, deveu-se ao fato de que, emergidos da I Guerra Mundial
como uma das grandes potências globais, os Estados Unidos gozavam de
prosperidade que, até a Grande Depressão Econômica de 1929, parecia
inesgotável e sem limites: a ordem era produzir e consumir cada vez
mais, contrastando a situação do restante do mundo, de quem o país havia
se isolado sob todos os aspectos.
Foi
deste modo que, aos novos produtores da cultura imperante, não
importava nada do que continha fora de suas fronteiras pois os Estados
Unidos, acreditavam, estavam destinados por Deus a salvar o planeta com
sua cultura e a civilização do American Way of Life (crença
esta que perdura até hoje, justificando até suas guerras não apenas
entre norte-americanos, mas também entre as sociedades-fantoche de Tio
Sam).
Neste
contexto, junto do carro e do rádio o cinema obteve crescimento
avassalador naqueles anos, e no final da década uma média de 100 milhões
de norte-americanos frequentavam, semanalmente, os cinemas. Em todo o
mundo, se conhecia os grandes ídolos do cinema dos Estados Unidos e, a
partir de então, tal veículo de comunicação passou a impor às sociedades
de praticamente todo o planeta, ao longo do século passado até o
presente, estilos de moda, consumismo artificial, padrões de beleza, de
conduta, políticos entre diversas outras imposições de acordo com o
"messiânico"American Way of Life.
Contemporâneos piratas, de terno e gravata
Contudo, confirmando o velho e manjado vezo popular que "o que começa errado termina errado", Hollywood possui uma história que está à altura exata do que produz até hoje nas sociedades mundiais. No livro Cultura Livre,
Lawrence Lessig mostra que, apoiada pelo governo local, a gigante das
filmagens nasceu da pirataria que, aliás, não é exceção à regra nos
negócios norte-americanos. Veja uma passagem do livro de Lessig (citada
no jornal A Nova Democracia de dezembro de 2008):
"A indústria cinematográfica de Hollywood foi
construída por piratas fugitivos. Os criadores e diretores migraram da
Costa Leste para a Califórnia no começo do século 20, em parte para
escapar do controle que as patentes ofereciam ao inventor do cinema,
Thomas Edison.
"Esses controles eram exercidos através de um truste monopolizador,
a Companhia de Patentes da Indústria Cinematográfica, e eram baseadas
na propriedade intelectual de Thomas Edison - patentes. Edison formou a
MPPC (Motion Pictures Patents Company, ou Companhia de Patentes
de Filmes de Movimento) para exercer os direitos que a sua propriedade
intelectual lhe dava, e a MPPC era bem séria sobre o controle que
exigia.
"Como um comentarista cita em uma situação dessa história: '(...) Os independenteseram companhias como a Fox. E de forma semelhante ao que acontece atualmente, esses independentes foram duramente enfrentados. As filmagens eram paralisadas pelo roubo de equipamentos, e acidentes resultavam na perda de negativos, equipamento, prédios e algumas vezes até mesmo de vidas'.
"Isso levou os independentes a
fugir da Costa Leste. A Califórnia era remota o suficiente do alcance
de Edison para que esses cineastas pirateassem suas invenções sem medo
da lei. E os líderes do cinema de Hollywood, Fox entre eles, fizeram exatamente isso.
"Claro que a Califórnia cresceu rapidamente, e logo a proteção às leis
federais acabou chegando ao oeste. Mas como as patentes davam ao dono
delas um monopólio realmente limitado (apenas dezessete anos naquela
época), quando suficientes agentes federais apareceram, as patentes
haviam expirado. Uma nova indústria nasceu, em parte por causa da
pirataria da propriedade intelectual de Edison."
Departamento de Defesa dos EUA: "É nosso interesse participar da produção de filmes"
A
fim de exaltar a superioridade militar do Estados Unidos, de favorecer a
política local de recrutamento, exercer censura e passar a ideia de que
a guerra é uma solução necessária, o Departamento de Estado do país
participa diretamente da produção de muitos filmes desde o nascimento do
cinema, exercendo sempre papel fundamental em suas empreitadas
militares: cineastas, visando economizar, procuram a ajuda do Pentágono
que lhes fornece imagens de arquivo, assessoria técnica, acesso a
equipamentos de última geração, autorização para filmar em instalações
militares etc.
Em troca, os produtores de Hollywood submetem
seu trabalho aos escritórios do Pentágono responsáveis em auxiliar as
produções cinematográficas militares, cujos termos estão inscritos em
contrato restritivo, que diz:
""A produção deverá ajudar os programas de recrutamento das Forças Armadas.
"(...) A companhia produtora consultará o Departamento de Defesa para
todas as cenas militares durante a preparação, filmagem e montagem".
Segundo Philip Strub, assessor especial de mídia e entretenimento do
Departamento de Defesa, "é nosso interesse participar da produção de
filmes" (fonte: Victor Battaggion, em
Hollywood a Serviço do Pentágono, no seguinte sítio:
Em
1917, quando os EUA entraram na I Guerra Mundial, o Comitê de
Informação ao Público do então presidente Wodroow Wilson contou com o
auxílio da indústria do cinema, a fim de produzir filmes que gerassem
apoio à "batalha norte-americana" junto à sociedade.
O pacto entre o governo do país e o cinema cresceu durante a II Guerra Mundial, através da ampla propaganda fornecida por Hollywood e,
após esta que foi a guerra mais devastadora da história da humanidade,
Washington retribuiu com enormes subsídios à maior indústria
cinematográfica do globo, com verbas especiais do Plano Marshall
(bilhões de dólares despejados nos países europeus a fim de trazê-los
para o lado dos EUA em sua Guerra Fria com a ex-União Soviética) e
persuasão para abrir mercados europeus resistentes.
Desde a segunda metade do século XX, Hollywood tem
tratado de ridicularizar o povo árabe e persa, além de colocá-los como
potencialmente terroristas bem como a religião predominante deles, o
Islã, a fim de justificar também as imperialistas, sucessivas e
sangrentas ocupações militares de seus padrinhos da Casa Branca no norte da África e Oriente Médio, região mais rica em petróleo do mundo.
Mais recentes evidências dessa podre parceria de sucesso, corrupta aliança histórica entre a Casa Branca e Hollywood, são os filmes Zero Dark,
que passa a ideia de que os métodos de tortura praticados pela CIA, sob
os governos de George Bush filho (2001-2009) e Barack Obama hoje,
ajudaram a capturar Osama bin Laden (paupérrima história mesmo na vida
real), e Argo, o qual repete a velha propaganda cinematográfica
colocando o mundo islamita como terrorista e carente da intervenção
messiânica dos EUA.
No
caso particular de Argo, trata do Irã, motivo de obsessão invasora dos
tomadores de decisão de Washington desde que a Revolução Iraniana de
1979 derrubou o presidente xá Reza Pahlevi, pró-Ocidente, e nacionalizou
o petróleo.
Pois tal produção trata exatamente dos primeiros
anos daquela revolução e, não por coincidência, Argo foi vencedor do
Oscar' 2013, prêmio entregue pessoalmente pela primeira-dama
norte-americana, Michelle Obama, ao diretor Ben Affleck.
Do
imperialismo nas telas do cinema à contracultura norte-americana na
vida real, em abril de 2009 a Embaixada dos Estados Unidos na Síria
enviou telegrama secreto revelado por WikiLeaks em abril de
2012, em que a embaixadora-espiã Maura Connelly dizia enquanto o cenário
para a tal "Primavera" síria era arquitetada nos bastidores dos porões
do poder global:
"A
atratividade da cultural dos EUA ainda é um mecanismo poderoso para a
mudança da Síria. É revelador que, quando o SARG buscou punir os EUA por
seu suposto papel no ataque em Abu Kamal em 26 de outubro de 2008, eles
evitavam objetivos políticos mas, ao invés disso, fecharam as três
principais fontes da cultura norte-americana em Damasco: o Centro de
Cultura Americana (ACC), o ALC e a Escola da Comunidade de Damasco.
"Contar
com mais programação cultural, mais programas com alto-falante e o IV
programa de intercâmbio, continuam sendo nossas melhores ferramentas
para ter um efeito direto sobre a sociedade civil" (tradução exclusiva
desse telegrama ao português, que inclui injeção secreta de 12 bilhões
de dólares por parte de Washington de 2005 a 2010 para instalação de
canal de TV via satélite a ser transmitida dentro da Síria,
aqui
Vamos ao cinema ou comer pipoca?
Quanto
à barbárie cultural do cinema ao longo de todos estes anos, na era do
lucro não importando como e nem para quê, uma boa evidência do fato de
que ele se propõe a alienar as pessoas, além de todas as evidências nas
próprias telas, são as citações de E. J. Epstein, autor do livro O
Grande Filme, reproduzindo a filosofia cultural de um executivo de
cinema estadunidense (citado por Emir Sader no artigo Vamos ao Cinema ou Comer Pipoca?, na revista Caros Amigos):
"'O segredo para uma boa cadeia de multiplexes bem sucedida está
naquela porção extra de sal acrescentada à pipoca', disse o executivo. A
alta produtividade de pipoca produz grande quantidade com uma porção
relativamente pequena de grãos - favorece esses ganhos.
"Por
isso projetam as novas salas para que os espectadores passem antes pela
lanchonete: 'Nosso negócio se baseia na movimentação das pessoas. Quanto
mais pessoas conseguimos fazer passar pela pipoca, mais dinheiro
ganhamos', afirmou um dono de cinema norte-americano. Ele caracteriza o
porta-copo em cada cadeira das salas como 'a inovação tecnológica mais
importante desde a sonorização'(!). Daí o peso essencial que o público
jovem tem, como consumidor concentrado de pipoca e refrigerantes.
"A economia política da pipoca, que comanda a indústria
cinematográfica, influencia até na extensão dos filmes. Os muitos longos
- de mais de 128 minutos - diminuem uma sessão diária e, com isso, o
consumo de pipoca, sal e refrigerante."
Emir Sader conclui sua
matéria: "Difícil seguir chamando de arte o cinema - pelo menos o
estadunidense, submetido á lógica da pipoca". Acrescente-se a isso a
lógica da imposição de valores e a pilhagem da riqueza alheia
Hollywood e cigarro: Macabra e bilionária parceria de sucesso
Em seu livro O Cigarro (2001, Publifolha,
88 pp.), o jornalista Mario Cesar Carvalho evidencia que a indústria do
cigarro não apenas sabia, desde a década de 1950 (anos em que o fumo
foi amplamente difundido como jamais antes na história se transformando
em "coqueluche" mundial, grande ícone da moda vendido pela publicidade e
pelas telas do cinema norte-americano), que o que ela produzia causava
câncer, como também foi apoiada justamente por Hollywood para
esconder tal fato das sociedades mundiais até os anos de 1990, enquanto
colocavam (assim como fazem ainda hoje em grande medida) o cigarro como
expressão de liberdade, imponência, contemplação de novos horizontes,
muito charme e, paradoxalmente com um sopro macabro de saúde (!).
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no século XX o cigarro,
"droga lícita" segundo os governos ocidentais, matou mais de 100 milhões
de pessoas e mata atualmente 3,5 milhões de pessoas no mundo ao ano. De
acordo com pesquisas doAtlas do Tabaco lançado pela Sociedade
Americana do Câncer e pela Fundação Mundial do Pulmão, apenas em 2010 o
tabagismo levou à óbito 6 milhões de pessoas em todo o mundo, com tudo
isso se configurando o cigarro na maior causa de mortes evitáveis na
história da humanidade - sob as bênçãos de Hollywood rendendo,
assim, bilhões de dólares à indústria do tabaco, da publicidade, aos
governos (por meio dos impostos) e, é claro, à própria Hollywood.
E formar idiotas por quê?
A
esperteza que levou os piratas à Califórnia permanece na indústria do
cinema hoje, que não receberia apoio direto do Estado norte-americano
para investir bilhões e bilhões de dólares em tanta fezes moral e
intelectual, caso não houvesse bons motivos para isso, os quais vão muito além dos exorbitantes lucros conforme vimos.
A
mais eficiente arma para as forças corruptas de dominação seguirem
ganhando terreno, mentes e corações se dá através da aniquilação da
cultura e do senso crítico (*), sendo que tal supressão, muitas vezes de
maneira sutil, é via de regra na história imperialista mundial, e sua
prática é nata em qualquer indivíduo com mentalidade reacionária.
À "civilização" norte-americana e sua política
coercitivo-expansionista, por sua vez, é fundamental que as sociedades
(inclusive a sua) estejam idiotizadas, excluindo delas a necessidade de
pensar, de questionar e de ter memória, submetendo a tudo e a todos aos
princípios "superiores" e "salvadores" dos Estados Unidos.
Rambo foi produzido no início da década de 1980 para cicatrizar as
feridas norte-americanas da vexatória derrota no Vietnã em 1973, na qual
foram usadas pelos Estados Unidos até bombas químicas (o agente
laranja, caracterizando crime de guerra).
E quando o país mal
havia se recuperado moralmente dessa derrota, os escândalos de
corrupção envolvendo os presidentes Richard Nixon (1969-1974) e Ronald
Reagan (1981-1989), somados à derrota no Irã em 1979, configuraram-se em
outros duros golpes que colocaram definitivamente em xeque a democracia
do país perante o mundo. Desses seguidos vexames veio o herói-justiceiro do cinema.
Pois Rambo, escolhido com toda sua robustez justamente para passar ao
mundo uma imagem de poder dos Estados Unidos, é um personagem
"artístico" que representa bem a rapinagem que só cresce naquele país,
bem como a estatura intelectual e moral, e a truculência dos Estados
Unidos, tanto dentro do país quanto em sua política externa.
Mas você não precisa ser o que querem que você seja
Nunca houve tanto conhecimento científico e tecnológico, nem nunca
houve tanta informação e em tempo real como hoje, assim como nunca
também o ser humano esteve tão afastado da realidade e da sua própria
existência, quanto atualmente.
A violência, a corrupção, a
alienação como instrumento de dominação psicológica, a fome, a
degradação ambiental e as guerras só aumentam e as sociedades não só não
questionam como mal percebem tudo isso, havendo uma consequente
inversão de valores: assiste-se telenovela como se fosse real, e o real
como se fosse telenovela.
Diante dessa barbárie cultural e
moral, se for o caso reconsidere profundamente ideias e costumes ainda
que estes sigam a corrente predominante: siga sua consciência e suas
paixões, não aquilo que impõem a você muitas vezes de maneira sutil, com
aspecto sedutor mas mofado e escravizante na essência. Mude de canal,
troque o DVD, renove a programação com os amigos, preserve sua cultura
como o patrimônio mais precioso que possui.
Biografia:
Edu Montesanti é professor de idiomas, autor de
Mentiras e Crimes da "Guerra ao Terror" (Scortecci Editora, 2012), colaborador do
Diário Liberdade (Galiza), de
Truth Out (Estados Unidos), tradutor do sítio na Internet das
Abuelas de Plaza de Mayo (Argentina), da ativista pelos direitos humanos, escritora e ex-parlamentar afegã, Malalaï Joya, ex-articulista semanal do
Observatório da Imprensa(Brasil), e editor
do
www.edumontesanti.skyrock.com
http://port.pravda.ru/mundo/27-01-2016/40261-historia_hollywood-0/